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Prosopagnosia: entenda os desafios de quem convive com a cegueira facial

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  • há 12 minutos
  • 3 min de leitura

Embora não tenham problemas de visão, pacientes com cegueira facial não identificam o rosto de outras pessoas



Imagine encontrar um amigo muito próximo e não reconhecê-lo pelo rosto. Parece impossível, mas essa é a realidade de quem convive com a prosopagnosia, uma condição neurológica popularmente conhecida como “cegueira facial”.


Segundo Wilson Faglioni Júnior, neurocirurgião e doutorando em ciências da saúde, apesar do nome, a pessoa não é cega e também não tem problema de visão.


Cegueira facial pode ser congênita ou adquirida

O especialista destaca que a condição pode estar presente desde o nascimento ou surgir ao longo da vida. “Na forma congênita, a pessoa cresce sem perceber que reconhece rostos de maneira diferente da maioria das pessoas. Sem saber, aprende a identificar amigos e conhecidos pela voz, pelo jeito de andar, pelo corte de cabelo ou pela forma de se vestir”, explica.


Já a forma adquirida aparece após uma lesão cerebral em alguém que antes reconhecia rostos normalmente. Nesses casos, a mudança costuma ser súbita e chama bastante atenção do próprio paciente e da família. É o que acontece com Sadie Montgomery, personagem do livro “Olá, Estranho”, da autora americana Katherine Center.


“Imagine que você está lendo um livro de cabeça para baixo em um idioma desconhecido. Pois é, é assim com que se parece a nova realidade de Sadie. Todo rosto que encara parece um quebra-cabeça desconexo e irreconhecível”, diz o livro. A personagem adquire a condição após uma cirurgia, quando passa a não reconhecer nem o próprio reflexo.


O que causa a cegueira facial?


Esse exemplo da ficção é mais real do que se imagina. De acordo com o neurocirurgião, o acidente vascular cerebral (AVC) é uma das causas mais frequentes, principalmente quando acomete regiões da parte posterior do cérebro responsáveis pelo processamento dos rostos. Traumatismos cranianos também podem provocar esse tipo de alteração.


“Além disso, algumas doenças neurodegenerativas, como determinadas formas da doença de Alzheimer e da demência semântica, podem apresentar dificuldade para reconhecer rostos entre seus primeiros sintomas. Tumores cerebrais e encefalites também fazem parte das possíveis causas”, afirma ele.


Como acontece o reconhecimento de rostos?


O reconhecimento de rostos é uma das tarefas mais complexas realizadas pelo cérebro, conforme Faglioni Júnior. “Existe uma rede especializada para essa função. A principal região envolvida é o giro fusiforme, localizado na parte inferior do lobo temporal. É ali que o cérebro diferencia um rosto de qualquer outro objeto e identifica se aquela pessoa é alguém conhecido”, detalha.


Outras áreas também participam desse processo. “O sulco temporal superior ajuda a interpretar expressões faciais e movimentos, enquanto o córtex pré-frontal associa aquele rosto às nossas lembranças. Já a amígdala participa quando existe um componente emocional. Quando qualquer uma dessas estruturas deixa de funcionar adequadamente, o reconhecimento facial pode falhar”, resume.


Diagnóstico e tratamento da prosopagnosia


O diagnóstico da doença é feito principalmente pela avaliação clínica e por testes neuropsicológicos específicos, desenvolvidos para medir a capacidade de reconhecer rostos. Entretanto, é comum a confusão com outros problemas.


“Muitos pacientes passam anos sendo considerados distraídos ou com falhas de memória, quando, na verdade, apresentam uma alteração muito específica do funcionamento cerebral”, diz o médico.


Infelizmente, ainda não existe um medicamento capaz de tratar a prosopagnosia. O tratamento consiste principalmente em programas de reabilitação cognitiva, que ajudam o paciente a desenvolver estratégias para identificar as pessoas utilizando outras pistas além do rosto.


“Em alguns casos, especialmente quando a condição foi adquirida após uma lesão cerebral, esses treinamentos podem proporcionar melhora parcial, embora os resultados variem de uma pessoa para outra”, ressalta.


Como lidar com a cegueira facial no dia a dia


Mesmo sem tratamento, algumas estratégias podem ajudar quem convive com a condição. Segundo o especialista, a voz, a altura, o jeito de caminhar, os óculos, o cabelo e até o perfume passam a ser referências importantes. “O ambiente também ajuda: reconhecer alguém no local onde você costuma encontrá-lo é muito mais fácil do que cruzar com essa mesma pessoa de forma inesperada.”


Além disso, conversar sobre a condição com familiares, amigos e colegas reduz mal-entendidos e diminui o impacto social e emocional que essa dificuldade pode causar. Atualmente, alguns aplicativos de reconhecimento facial também começam a ser utilizados como ferramenta de apoio, embora ainda apresentem limitações.


Fonte: UOL - Portal Drauzio Varella

 
 

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